Na companhia dos bonecos, Jefferson Mendes aproxima o teatro de Ibitinga

Arte 3 - especial professores - Jefferson

A primeira lembrança que Jefferson Mendes tem dos bonecos vem da escola, ainda nos primeiros anos de infância, entre 2 e 5 anos, quando sequer estava matriculado no ensino regular. Era na companhia de uma infinidade de fantoches que ele ficava para acompanhar o avô no trabalho, zelador da instituição.

Da saleta, surgia sua primeira companhia de teatro. “Eu ficava brincando com os bonecos. Era uma escola muito rica em cultura, tinha uma caixa de fantoches e lá eu brincava de teatro”, lembra.

Jefferson é o oficineiro de teatro de O Palco responsável pelas aulas em Ibitinga, no interior de São Paulo. Além dele, os bonecos também irão entrar em cena, de modo a proporcionar uma vivência ainda mais rica, imersas em um universo lúdico.

Para o educador, os bonecos não se restringiram a infância. Eles cresceram junto com Jefferson, com novas feições e expressões que acompanhavam o desenvolvimento do mestre. Não são mais os fantoches da velha caixa de brinquedos da escola, são dotados de expressões profundas, detalhes e características singulares. São capazes de se transformar em mais de um personagem, repletos de encanto e graça.

Os bonecos de Jefferson, cheios de realidade e sonhos. | Foto: Arquivo Pessoal

Os bonecos de Jefferson, cheios de realidade e sonhos. | Foto: Arquivo Pessoal

Ele fez o teatro de bonecos ganhar espaço em Ibitinga somente depois da graduação, em Londrina. “Fiz o curso na UEL, uma das poucas que tem teatro de bonecos e me encantei por todas as frentes. Também gosto de figurino, atuação e comecei a trabalhar com uma companhia de teatro Bunrako”, contou. Bunrako é uma manifestação da cultura popular japonesa, cujos bonecos contam histórias do Japão antigo.

“Quando voltei para Ibitinga, vi que não tinha nenhuma companhia de bonecos”, contou Jefferson, que iniciou a modalidade em sua cidade natal. Com a nova missão de trazer o teatro e os bonecos para dentro do projeto O Palco, ele é nostálgico.

“É como voltar e encontrar comigo mesmo aluno. Não tive professor de teatro, mas tive professores primordiais, tanto como artista, tanto como pessoa. Eles davam aula apaixonados pelas artes”, afirmou. “Foi uma emoção muito grande saber do projeto e plantar novas sementinhas”, acrescentou.

Rio, logo penso

O encanto com as artes constrói novas histórias, com gerações diferentes. | Polo Cultural

O encanto com as artes constrói novas histórias, com gerações diferentes. | Polo Cultural

O professor Jefferson Mendes tem enorme afinidade com o universo lúdico, dada sua trajetória desde a infância até a fase adulta. No entanto, encontra certa resistência quando se fala em um gênero que abrace o lúdico e o humor. Ele reforça que a tendência das pessoas é concluir que o universo humorístico é contrário ao pensamento crítico.

“Sempre gostei de criança, desse lado infantil, lúdico, com mais cor, emoção”, explica. “Mas ao contrário do que se fala por aí, o riso também pode fazer a gente pensar”, defende o educador.

Jefferson acredita que determinados gêneros deveriam ser mais valorizados em termos educacionais: “Falta uma base de teatro para as crianças, hoje se tem a peça infantil e a adulta, com poucas produções para um público infanto-juvenil”.

A realidade começa a mudar quando se reforça as práticas artísticas voltadas para as crianças. Com o projeto O Palco, Ibitinga se prepara para uma geração mais criativa. “A arte é a porta de entrada para tudo na vida, mesmo que a criança não se torne um artista verá a vida de outra forma. Ela enxerga coisas mais elaboradas, trata melhor questões pessoais, do dia a dia. Às vezes a rotina é muito quadrada e nem conseguimos ver um passarinho, uma cor”, enumera Jefferson Mendes.