A caminhada de Kaique e do Polo Cultural por um andador e um tratamento

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Em uma das aulas do projeto Acessibilidade, do Polo Cultural, Kaique pegou o embalo no andador do colega e começou a percorrer o espaço enquanto imitava o som de um carro em movimento – brum, brum – e não parava, com um sorriso contagiante e os incentivos da professora Bruna Burkert. Ela filmava tudo de um celular. O vídeo é o ponto de partida para uma história que vai encontrar a fisioterapeuta Cristiana Figueira e mobilizar uma série de pessoas para que o menino encontre um andador e novos passos para traçar sua própria trajetória.

Kaique irá completar 13 anos no próximo setembro. Desde o seu nascimento, sua mãe descobriu que o menino necessitava de mais cuidados. Ele tem uma doença congênita múltipla – intelectual e física. Apresenta problemas de locomoção, raciocínio e uma série de distúrbios digestivos. Sua síndrome nunca foi identificada, mas deve provocar também sorrisos, um singular senso de humor e afeto, tamanho carisma Kaique carrega.

Kaique Sales Santos nasceu às 6h27 no dia 7 de setembro de 2004, o feriado no qual é celebrada a Independência do Brasil, naquele ano, foi acompanhado da notícia sobre o estado de saúde do filho de Dona Ângela. Com complicações no parto, a vida do menino começa com três meses de internação na UTI do Hospital Modelo. Entre a recuperação e a alta, Ângela Santos se inteirou das condições do recém-nascido e fez um curso de gastrostomia para poder cuidar do filho em casa. Ele teve que usar uma sonda alimentar na primeira fase da vida e nasceu com fenda palatina.

Tudo isso chegou ao conhecimento da mãe somente depois do nascimento, pois nenhuma das médicas ginecologistas havia pedido o ultrassom morfológico. “Vim para casa com o ele, com a cara e a coragem. Fui cuidando do Kaique desde essa idade, com muita fisioterapia e fonoaudiologia”, cita a mãe.

A força que Kaique encontra para enfrentar as adversidades, essa sim, deve ter sido uma transmissão genética, pois Ângela não esmorece um segundo sequer quando se trata de conseguir os melhores cuidados para o desenvolvimento do caçula – ela tem uma filha de 33 anos e dois netos.

Dentre os cuidados diários e as inúmeras visitas aos mais diversos médicos, a mãe assume o sentido genuíno da palavra. É mãe, portanto não desiste de preservar os direitos de Kaique e lutar pela sua melhora. Foi assim que conseguiu uma ação judicial que garante acompanhamento total na escola. Frente às necessidades do garoto, ela temia pelo período em que ele estaria sobre outra responsabilidade.

Os passos e o projeto Acessibilidade

Kaique em uma das atividades do projero Acessibilidade. | Foto: Polo Cultural.

Kaique em uma das atividades do projero Acessibilidade. | Foto: Polo Cultural.

Os primeiros passos de Kaique foram aos 7 anos de idade. Ele nasceu com os pés tortos e o tratamento com gesso não foi capaz de resolver o problema. Adquiriu um caminhar lento, se adaptando às limitações. Quase sempre precisava de um apoio, de uma mão e sempre as encontrava com a mãe Ângela Santos. Também encontrou mãos parceiras no projeto Acessibilidade, com o zelo das professoras Bruna Burkert e Andresa Rizo.

Todavia, a solução para o problema de locomoção haveria de ser cirúrgica. Marcada para agosto de 2017, a intervenção não apresentou problemas, porém a recuperação requeria fisioterapia. Apesar de todos os esforços, Ângela se deparou com os entraves do sistema público de saúde e não conseguiu agendar as sessões necessárias. Inquebrantável, a mãe de Kaique bancou o tratamento particular o quanto pode.

Kaique recuperou os passos, porém esbarrava na dor e na falta de um especialista por perto. A surpresa maior foi quando a professora Bruna Burkert, que coordena o projeto Acessibilidade viu o aluno em uma cadeira de rodas. “Ele voltou para o projeto esse ano em uma cadeira de rodas. Ele não era cadeirante, apenas andava devagar, com apoio de alguém”, relata a coordenadora.

A cadeira de rodas foi vista como solução frente à resistência de o garoto se locomover. Porém, a decisão só agravava o quadro, uma vez que ele não exercitava a musculatura. “Comecei a falar com a escola, mas esses assuntos são muito velados”, pontua Burkert.

Dentro do projeto Acessibilidade, Kaique era incentivado a recuperar o caminhar e o encontro com um andador foi um marco para que essa história ganhasse novos passos. Para isso, Bruna Burket também contou com uma grande aliada.

“Quando liguei para a mãe, ela foi super receptiva. É uma pessoa que sabe muito bem os direitos dela. Se o Kaique está melhorando, tem muito a ver com a personalidade dessa mãe. Bom, ela gostou muito da ideia do andador”, elogia.

O andador emergiu como uma solução na visão das professoras do projeto Acessibilidade, Bruna Burkert e Andresa Retti. Haja vista as dificuldades financeiras que a família de Kaique já enfrentava, as educadoras se movimentaram para conseguir uma doação de andador. Entra na história Ana Carolina de Freitas Quitério, uma amiga em comum que assegurou a doação junto com a empresa onde trabalha. Foi então que surgiu a questão: Qual?

É preciso saber qual o tipo de andador se adapta às necessidades de Kaique e esse parecer só poderia ser dado por uma fisioterapeuta. Isso não abalou os esforços e quando o vídeo de Kaique chegou à especialista Cristiana Figueira, a história do aluno do projeto Acessibilidade ganhou uma nova e essencial personagem.

Os novos passos e a fisioterapia

Fisioterapeuta Cris foi fundamental para que Kaique vislumbrasse novas conquistas. | Foto: Arquivo Pessoal.

Fisioterapeuta Cris foi fundamental para que Kaique vislumbrasse novas conquistas. | Foto: Arquivo Pessoal.

Kaique Santos deixou de usar a cadeira de rodas na escola depois de a mãe conseguir uma carta impeditiva junto a um ortopedista. No entanto, era imprescindível um fisioterapeuta atestas o andador correto.

Cristiana Figueira foi recebida por Ângela, na casa de Kaique, em uma terça-feira. “A mãe me contou do parto, do procedimento cirúrgico e depois fiz alguns testes, primeiro se ele me entendia, mas ele tem um bom grau de entendimento, depois começamos com os exercícios”, conta a fisioterapeuta.

“Eu o avaliei e realmente ele pode conseguir um bom resultado com o andador, mas tem um caminho a percorrer. Coloquei de pé e ele adorou, falou que queria andar”, observa Figueira. “Há muitas possibilidades de conseguir ganhos com o Kaique, mas ele está perdendo funções porque as pessoas deixam de fazer por ele”, acrescentou se referindo aos momentos na cadeira de rodas.

Se depender da personalidade de Kaique e da vontade que vem demonstrando, o garoto irá evoluir na caminhada antes do esperado. “Eu enxergo muito potencial, quando todos dizem que ele não pode fazer alguma coisa, eu acredito que pode. Ele tem um senso de humor muito atípico para crianças com essa deficiência”, entoa Bruna com encantamento. A mãe Ângela reforça as características que lhe importam no filho: “Ele é uma criança feliz, alegre”.

Kaique, como toda criança de sua geração tem um interesse especial por tecnologia e se distrai assistindo vídeos no tablet. Entre os seus preferidos estão o Chaves, a Emília, crianças tomando vacina ou tirando gesso. “Ele pesquisa muito na internet também”, acrescenta a mãe, que outro dia viu Kaique navegar em uma agência de empregos. “Ele é uma criança muito esperta, muito querida, só não gosta de ver outras crianças chorando ou briga, aí ele fica nervoso”, completa.

Depois do primeiro atendimento e a conversa com a mãe do Kaique, Cris anuncia que acompanharia voluntariamente o tratamento do menino. Ela nunca havia trabalhado com crianças com deficiência antes, a não ser poucos estágios durante a faculdade, porém abraçou a proposta.

“Eu acho que basicamente é uma forma de agradecer. Você olha a dificuldade da história do Kaique e tudo que a mãe dele contou, por que não gastar uma hora, uma vez por semana?”, questionou a mãe de Fernando (4) e Felipe (2). Para conseguir o melhor tratamento, a fisioterapeuta dará suas cartadas. “Ir para a piscina seria ótima para ele, vou deixar uma carta com o professor de natação (atividade dentro do CEU Jaçanã), uma com o ortopedista para ele usar a palmilha certa e uma na escola para ele ter um assento especial”, projeta.

Kaique Sales Santos ainda passará por algumas sessões de fisioterapia antes de ganhar o andador, mas já espera pelo novo parceiro.

-Anda – afirma Kaique.

-Você vai andar? – questiona Bruna Burkert.

– Andador!