Wendel calça sapatilhas e salta preconceito na Zona Norte de São Paulo

Bianca Mascara, para o Polo Cultural. 
O que faz Wendel faz sair quase todos os dias de casa munido de sapatilhas na mochila é um sonho. A ambição do garoto de 11 anos, morador de uma comunidade de baixa renda no Jaçanã, extremo norte de São Paulo, pode parecer maior do que seus passos podem alcançar, mas o caminhar acelerado e o olhar horizontal mostram que nenhuma jornada é longa o bastante. Wendel quer ser bailarino e se os passos não forem suficientes, ele salta os obstáculos na trilha do sonho.
A história de Wendel se cruza com a do projeto O Palco, que mantém forte atuação na Zona Norte de São Paulo, onde sustentou suas bases para alcançar duas décadas de trabalho em prol da educação e da arte. É no bairro do Jaçanã que o menino se encantou com as aulas de dança do projeto, mais especificamente o balé.
A irmã Juliana foi quem vestiu as sapatilhas primeiro nas aulas oferecidas pelo O Palco. Entretanto, a família não esperava que o envolvimento da menina despertaria tamanho encantamento em Wendel, então com sete anos.
“Você tem certeza?”, questionou o pai José Roberto. “Tenho”, afirmou o garoto cheio de brio. O diálogo e a discussão que envolveu toda a família se pautava na participação de Wendel nas aulas de dança e no preconceito que tal decisão acarretava, não em âmbito familiar, mas social. José Roberto, cabelereiro, sabe que certas profissões e escolhas ainda são passíveis de julgamento da sociedade e não queria que o filho tivesse uma experiência nociva ao seu crescimento. O efeito, no entanto, foi contrário e a dança transformou positivamente a infância de Wendel.
Sempre com suas sapatilhas, ele não esmorece frente aos comentários dos colegas, tampouco se obstém de mostrar seu talento sempre que solicitado. “Uma vez eu fiz uma dança na sala e eles começaram a me respeitar mais”, comentou com a confiança de sempre. Vez ou outra, ele ainda escuta: “Olha lá a bailarina!”. Porém, o artigo feminino não o demove do sonho, de sua ideia de ser bailarino e apresentar o emprego correto do português aos colegas que acreditam na divisão antiquada de gênero.
Especial Wendel - CEU Jaçanã - 2
As risadinhas, tão corriqueiras, fazem parte da rotina, mas a sonoridade de preferência de Wendel é dos aplausos. E eles reverberam a cada apresentação tornando qualquer deboche inaudível ao pequeno bailarino. É mesmo de se aplaudir tanta força de vontade, mas Wendel não está sozinho. Além do suporte familiar, é na figura do professor Edson Santos que o garoto se conforta e consolida suas escolhas.
“Ele está envolvido em um ambiente de meninas, então me coloco no mesmo patamar. Eu como professor, porque as mães também pensam ser uma professora. Ele não está sozinho e isso é muito bem trabalhado com a família. Ele simplesmente não liga, ele entende”, explica o professor em tom elogioso.
O reconhecimento do professor como um exemplo e aliado contra o preconceito gera tamanha admiração no garoto, que não faltam oportunidades em que a dança fica de lado na troca de cumplicidades. “Na fase que ele está, o professor se torna uma referência, a pessoa que te orienta e tem sempre uma resposta, te encaminha, dá atenção. O Wendel já pediu algumas orientações para casos particulares”, conta Edson, que também assume o papel de orientador com outras crianças da comunidade.

Edson Santos, educador do Polo Cultural, orienta pupilo e dá conselhos para enfrentar o preconceito. | Foto: Polo Cultural

Edson Santos, educador do Polo Cultural, orienta pupilo e dá conselhos para enfrentar o preconceito. | Foto: Polo Cultural


O docente tem plena consciência que o trabalho de artes desenvolvido pelo projeto O Palco no CEU Jaçanã tem grande impacto na relação das crianças e jovens da comunidade. Por isso, exige disciplina dos seus alunos.
“O Wendel é bem dedicado, tanto é que o professor Edson é rígido e eu pensei que ele não ia querer continuar por isso, mas ele segue indo sempre nas aulas”, comenta Patrícia Ribeiro, mãe do bailarino. Ela está feliz com o envolvimento do filho na dança e já se recusou mudar do bairro em virtude das atividades oferecidas aos filhos – Wendel tem três irmãos. Em uma extensão da casa da sogra, onde mora, ela acompanha a evolução de Wendel desde que iniciou com o professor Edson.
“Ele melhorou o comportamento, está mais amoroso”, afirma, relembrando os tempos de indisciplina que a levaram a recorrer ao auxílio de um psicólogo. “A princípio ele era bastante inibido, agora está mais extrovertido e comunicativo. Trouxe disciplina, entender o outro, responsabilidade, que é um ponto que a gente acaba ajudando bastante”, concorda o professor.
Wendel, que fora inspirado a iniciar na dança pela irmã Juliana – hoje praticante de Jiu-Jitsu –  também serviu de modelo ao irmão mais novo. O pequeno Ryan, de 8 anos, integra a turma do professor Edson Santos no O Palco do Jaçanã. Patrícia, ao ver os filhos envolvidos nas atividades esportivas e culturais, ameniza as preocupações. “Eu tento fazer o máximo para colocar eles nas atividades, aqui é uma comunidade e tem droga rolando. Sou uma mãe que alerta sobre tudo, em bom português”, afirma enérgica.
Único menino entre as meninas do balé, Wendel não se dobra diante do preconceito e vira inspiração dentro da família. | Foto: Polo Cultural.

Único menino entre as meninas do balé, Wendel não se dobra diante do preconceito e vira inspiração dentro da família. | Foto: Polo Cultural.


O próprio Wendel reconhece as mudanças positivas, não só no desempenho escolar, mas na maneira de enfrentar as dificuldades. “Eu sempre rezava para não ficar nervoso e perder a cabeça com o que falavam na escola, mas hoje eu sei que isso não importa, tem muito preconceito, mas eu não ligo”, comenta. Wendel, de fato, não demostra preocupação com o falatório e as injúrias. No quesito, enfrentar a vida ele é professor e serve de inspiração dentro da família. “Ele é uma inspiração para mim também, ele está correndo atrás!”, exalta Patrícia, ainda surpresa com a última façanha do filho.
Bolsa-surpresa
Quando Wendel ficou sabendo através de uma prima que o estúdio de dança Renato Prado abriria vagas para bolsistas, mais uma vez guardou as sapatilhas na bolsa e saiu. Fez um breve comunicado a mãe sobre a oportunidade, mas sequer ela podia imaginar a ousadia do filho.
Na segunda vez em que tocou no assunto, o menino já não escondia a empolgação. Ganhou bolsa para estudar dança na escola, não somente o balé, seu estilo favorito, mas também outras três modalidades: sapateado, jazz e hip hop.
O menino conta com naturalidade a conquista e lembra o esforço da família para mais uma vez o aproximar de seus objetivos. “Teve que comprar uma sapatilha diferente para o sapateado e o uniforme”, conta. “Eu nem sabia dessa história de bolsa, é ele que corre atrás do sonho, então a gente se mobilizou para comprar o que precisa, porque eu não poderia pagar pelas aulas”, completou a mãe, com a voz embargada pelo orgulho.
Desde a conquista, Wendel se dedica de segunda a quinta nas aulas e ainda o sábado. A sexta-feira é seu dia de descanso, pois domingo segue o compromisso com a igreja. O garoto, a exemplo da mãe, é muito religioso.
Especial Wendel - CEU Jaçanã - 1
Por trás do sonho de se tornar um profissional, está uma nova condição social à família. Wendel quer ter “uma vida boa”. “Eu quero me tornar um bailarino profissional e ajudar meus pais e todo mundo que precisa de dinheiro. Eu quero ter uma vida boa!”, afirma o menino de 11 anos. Quando questionado sobre seu conceito de vida boa, ele é genuíno: Uma vida boa é ter comida, água, quando tiver meus filhos, poder levar para os lugares.
Quando vemos um garoto enfrentar as dificuldades da comunidade, encarar o preconceito com coragem e se dedicar com afinco, não podemos esquecer que se trata de uma criança, que merece todo encantamento aliado a infância e que, apesar de se expressar com firmeza – foi assim que aprendeu a enfrentar os problemas – revela também a candura de alguém que não quer ser ninguém em uma sociedade de pouca representatividade das periferias e de seu contexto social.
A arte entra na vida de Wendel – e de tantos outras crianças e jovens – para apresentar um mundo. A comunidade, os problemas sociais escondidos nas vielas e muitas vezes a ausência do Estado, a injustiça, não é o todo quando se amplia os horizontes com as artes.
“Tem um impacto positivo de trazer ele para outra realidade, passa a ter contato com um mundo diferente, longe dos problemas da comunidade, a cabeça dele vai para o balé, o teatro, a música, o contato maior com a arte amplia a visão de mundo da criança, de que o mundo não se resume ao que ele vive na comunidade”, analisa o professor Edson Santos.
No mundo que Wendel Santos irá conhecer há muito mais que água e comida para suprir necessidades fisiológicas básicas. No mundo de Wendel tem cultura e artes para fomentar sonhos e dar passos muito maiores que as pernas podem alcançar.
 


Para ajudar Wendel e outras crianças que se apoiam nas artes para mudar uma realidade social, acesse o canal de contribuição do Polo Cultural.